O bem-te-vi cara de pau



Aqui na praia, vejo uma grande variedade de aves em ação. Casais inseparáveis de pica-paus amarelos vasculhando os jardins em busca de aventura, discussões acaloradas de caturritas no transformador do poste perto do meu quarto, arrastões de mergulhões encurralando os peixes do lago do condomínio, ataques aéreos de quero-queros aos desavisados que passam perto dos ninhos, piru-pirus catando tatuiras distraidas quando as ondas recuam, além de garças, corujas e outros avistamentos pra lá de interessantes.

O cardeal e o bem-te-vi estão entre os meus pássaros preferidos desde pequeno, quando eu reconhecia no primeiro olhar os passarinhos estampados nas caixas de fósforo Paraná. Mas preciso confessar: no fim da manhã de ontem, o bem-te-vi deu uma bela arranhada na própria imagem.

Eu estava na sacada, apreciando uma caipirinha de limão com Sagatiba enquanto ouvia uma playlist do Keane,  quando fui surpreendido por uma cena inusitada. Ao ver um bem-te-vi parado diante de um maçarico-preto que catava minhocas enfiando o longo bico amarelo na grama, desviei a atenção da bebida e da música e foquei na cena.

A distância entre os dois era curta, pouco mais de um palmo. A cada mudança de posição do maçarico, também conhecido como tapicuru, o bem-te-vi ajustava a própria posição para permanecer sempre de frente ao grande pássaro preto. Imaginei estar diante de um desafio, uma encarada de Davi contra Golias, mas isso seria óbvio demais.

Em certo momento, um canário-da-terra se aproximou e passou a rodear a dupla, como se soubesse o que estava por acontecer e quisesse assistir ou tirar proveito da situação. Assistiu um pouco, fez as contas, percebeu que não teria chance e saiu de fininho.

De repente, a coisa mudou. O tapicuru retirou uma minhoca do chão, deixando boa parte do anelídeo para fora do bico. O bem-te-vi, então, partiu para cima com a clara intensão de roubar o almoço - ou pelo menos uma lasca. A reação do tapicuru foi imediata e elegante: virou rapidamente o bico e o corpo, escapou do golpe e engoliu o resto da minhoca num só movimento.  

O bem-te-vi, porém, não desistiu nem demonstrou constrangimento. Quando o tapicuru voltou ao trabalho procurando pacientemente outra minhoca, ele se posicionou à frente para uma nova tentativa. Passados uns quinze minutos, a cena se repetiu mais duas vezes: minhoca pendurada, ataque oportunista e esquiva precisa. Por fim, o malandro bico-leve desistiu e saiu voando com se nada tivesse acontecido, sem culpa, sem vergonha.  

Duas coisas me chamaram a atenção: a cara de pau do bem-te-vi e o equilíbrio emocional do tapicuru, que poderia ter revidado o ataque impondo-se pelo tamanho, mas preferiu não fazê-lo. 

Terminada a cena, fiquei pensando... a gente vêm para a praia com a intensão de relaxar, de esquecer do noticiário indigesto, da política, mas não adianta. As discussões acaloradas continuam, os arrastões e os ataques aéreos não param e as tentativas de roubo bem ou mal sucedidas não dão sinais de que vão terminar. Mudam os cenários, mudam os personagens, mas os bem-te-vis continuam os mesmos.  

 

Este site utiliza cookies para garantir a melhor experiência.