Sexo, dor e literatura



"IA não transa e não sente dor, então não ameaça a literatura", disse o escritor britânico Ian McEwan. Gostei da frase. Não porque concorde com ela, mas porque ilumina o tema com humor. E também porque os grandes frasistas estão em extinção. Quantos Nelsons Rodrigues, Arianos Suassuna ou Stanislaws Ponte Preta surgiram nos últimos tempos?

Entrando na polêmica, suspeito que muitos dos melhores escritores já passaram da idade dos prazeres carnais e costumam usar boas doses de medicamentos ou álcool para evitar a dor. Talvez isso não derrube a tese, mas deve balançá-la. Para ouvir a outra parte, pedi ao ChatGPT que rebatesse a afirmação de Ian de forma espirituosa, e uma das respostas chamou a atenção. É pouco polida, mas usa o mesmo princípio e sarcasmo da minha frase. "Se para escrever fosse obrigatório transar e sentir dor, metade dos críticos literários estaria desempregada."

Deixando o sexo e a dor de lado, faço parte dos que enxergam na IA uma ameaça menos à escrita do que à leitura, e por consequência, à própria literatura. A ironia é que a IA é feita de texto. Quanto mais ela é usada, mais as pessoas interagem com palavras. A questão é que ler uma resposta pronta não exige o mesmo esforço cognitivo que acompanhar um romance de trezentas páginas ou interpretar um conto de Machado de Assis. Estaria a IA reduzindo nossa disposição para enfrentar textos que não entregam tudo mastigado? Falemos de qualidade, não de quantidade. Talvez aí esteja o verdadeiro desafio.

O fato é que a relação entre humanos e IA já ultrapassou há algum tempo a mera utilidade prática. Estamos delegando atividades e abrindo mão de habilidades técnicas e cognitivas que a humanidade levou milênios para desenvolver. Antes, fazíamos pesquisas e escrevíamos resumos. Hoje, pedimos que a IA faça isso por nós. Antes, memorizávamos mapas e caminhos. Hoje, estamos reféns do GPS. Aprendizagem ativa, consolidação do conhecimento, habilidade para construir mapas mentais, senso de direção... aos poucos, deixamos de exercitar justamente aquilo que nos tornou capazes de criar ferramentas como a própria inteligência artificial.

Tenho a impressão de que Ian resolveu tranquilizar o mundo literário. Foi uma declaração sofisticada e até reconfortante para escritores que já começam a olhar para o ChatGPT como quem observa um estagiário eficiente prestes a tomar o lugar do chefe. Mas falta o corpo, o desejo, a paixão, o sofrimento, e sem estes ingredientes, não há literatura. Faz sentido, mas desconfio que virão com o tempo, afinal, estamos diante de um bebê. É possível que em poucos anos a IA escreva tão bem quanto nós. Quanto a transar e sentir dor... bem, isso deve demorar um pouco mais. Ainda temos uma vantagem competitiva. Que seja eterna enquanto dure. 

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