A culpa é nossa



Edgar voltou para casa inconformado. Caminhou de um lado a outro da sala praguejando contra o mundo repetidas vezes até desabar exausto na poltrona. Levaram seu celular. Foi tudo muito rápido, como convém à eficiência moderna. Sacou o aparelho do bolso para ver as horas, e pronto: alguém com mãos leves e pernas ligeiras resolveu redistribuir a posse do bem e sumiu como um raio. Edgar ficou com o tempo, o pernas ligeiras com o celular. 

Com Daniel foi diferente, mas nem tanto. Arrombaram o carro para levar um velho blusão de lã esquecido no banco de trás. Um blusão já surrado, mas que, aos olhos do ladrão, parecia promissor. Resultado: vidro quebrado, banco coberto de cacos e aquela sensação de invasão que fica martelando na cabeça.  

Cecília, por sua vez, sofreu um golpe mais sofisticado, desses que dispensam esforço físico e exigem apenas um bom roteiro. Recebeu uma mensagem no WhatsApp: o filho, número novo, urgência antiga. Transferiu o dinheiro sem ligar antes. Coração de mãe também se engana. Perdeu mais que dinheiro: perdeu a convicção de que não é capaz de reconhecer a própria família.

Deram mole, você não acha?

Edgar não devia olhar as horas na rua. Daniel não devia se fiar no vidro. Cecília não devia confiar naquela mensagem, naquele número, naquele horário. No fundo, a gente sabe: a vítima sempre erra alguma coisa. É quase uma exigência moral do enredo.

Falta de atenção, imprudência e ingenuidade são as palavras elegantes que a gente usa para dizer que alguém não seguiu o manual invisível de sobrevivência urbana. Porque hoje não basta ser honesto; é preciso ser estrategista. Não basta andar na rua; é preciso prever o crime, antecipar o golpe, desconfiar do óbvio e suspeitar do improvável. Viver virou um exercício de paranoia com atualização constante.

Duvide de tudo. Não use o celular, não confie em mensagens, não deixe nada à vista, não acredite em ninguém, não seja distraído, não seja ingênuo. 

E, claro, condene as vítimas. É importante. Dá uma sensação reconfortante de controle, como se o mundo fosse justo, e só fosse perigoso para quem “facilita”. A gente aponta o dedo com a segurança de quem acredita, sinceramente, que nunca vai dar mole.

Até dar.

 

 

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