
Bem que me disseram: resista ao máximo. Depois que começa, não vive mais sem.
Resisti bastante, até a pandemia, até os cinquenta e cinco. Não foi fácil. Muitas vezes precisei fazer um furinho com o dedo, enrolando o indicador para conseguir ler as datas de validade. Quem vê a cena no supermercado estranha, franze a testa, pergunta se está tudo bem. Mas a estratégia funciona. Ainda uso em emergências. Basta fazer o furo bem pequeno e olhar através dele. Uma gambiarra a serviço da visão.
Às vezes, nem o furinho resolve, de tão minúsculas que são as letras. Como saber o que é sabonete líquido, shampoo ou condicionador no box do banheiro do hotel? Corre-se o risco de lavar o cabelo com sabonete, passar condicionador no corpo e sair do banho com a cabeça cheirando a erva-doce.
A presbiopia vai impondo suas condições sem pedir licença. No restaurante, o cardápio precisa ficar a uma distância que varia conforme a iluminação. Às vezes, nem o comprimento do braço é suficiente. Se o ambiente é intimista, com velas sobre as mesas, melhor pedir a especialidade da casa. Ou qualquer coisa que o garçom indicar.
No celular, a solução é aumentar o tamanho das letras. Aumentamos uma vez, depois outra, até que cada mensagem passe a ocupar a tela inteira. Tirar uma foto para o reconhecimento facial também é um grande desafio. Ao tirar os óculos, não conseguimos ler as instruções. Ao colocá-los, perdemos a posição e precisamos começar do zero.
A vida muda. Tarefas que antes fazíamos sem pensar, como conferir uma etiqueta, ler uma bula, consultar uma senha ou preencher um formulário, passam a exigir equipamento. É uma dependência difícil de admitir para quem passou boa parte da vida acreditando que podia resolver tudo sozinho.
Primeiro, a gente resiste. Depois, improvisa. Por fim, aceita.
E eu que me orgulhava de ter uma visão perfeita.
É a renovação dos orgulhos. Alguns vão, outros vêm.
Passamos anos tentando enxergar longe e, de repente, não conseguimos ler nem o que está na própria mão.
E pensar que tudo começou com umas letrinhas pequenas demais.
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