
Eu estava sem assunto para a crônica dessa sexta até lembrar que fiz sessenta e um na semana passada. O tema é matéria-prima de ótima qualidade para um cronista.
Lembrei, então, de uma crônica que escrevi há alguns anos chamada Até os 40 e poucos. Uma espécie de inventário de coisas que só acontecem até os quarenta e poucos anos. Terminava com esta frase: “Não tenho muita matéria para uma lista dos cinquenta e poucos, mas estou com um pressentimento de que a lista dos sessenta e poucos será longa.”
Pois bem. Estou aqui com o propósito de começar a lista. O problema é que ainda não descobri exatamente o que para de acontecer depois dos sessenta. Talvez porque algumas coisas não parem de acontecer de uma hora para outra. Elas vão fugindo aos poucos, sem barulho, até que um dia, você percebe que desapareceram. E descobre que você não é especial. E que chegou a sua vez.
No fundo, a gente alimenta uma certa esperança de que algumas mudanças previstas demorem um pouco mais para chegar. Especialmente as físicas. Mas elas não costumam atrasar muito.
Para evitar decepções, basta parar de se olhar. Tarefa difícil para quem, como eu, tem a casa cheia de espelhos.
Uma coisa que muda com muita nitidez é a velocidade do tempo. Aos vinte, um ano parece uma eternidade. Aos quarenta, passa rápido. Aos sessenta, voa. Talvez por isso a gente comece a valorizar o que antes parecia sem importância. Uma boa cadeira. Um sofá confortável. Um restaurante onde seja possível conversar. Uma vaga de estacionamento próxima da entrada. A fila de embarque prioritário no aeroporto.
Festas e shows? Só se tiver lugar para sentar.
Aos vinte, você chega às onze da noite. Aos sessenta, começa a pensar em ir embora às onze.
Se alguém pergunta:
— Já vai?
Você responde:
— Amanhã acordo cedo.
E acorda mesmo. Não importa que seja sábado ou domingo.
Algumas amizades também mudam. Deixam de ser encontros frequentes e passam a ser reencontros. Você pode ficar meses sem ver alguém e, quando encontra, a conversa continua exatamente de onde parou. Isso é uma das boas coisas que a idade traz: a possibilidade de não precisar estar presente o tempo inteiro para continuar fazendo parte da vida de alguém.
Você também começa a perceber que não precisa fazer tudo. Precisa escolher. Algumas pessoas. Alguns lugares. Algumas histórias. Principalmente algumas brigas.
Acho que os sessenta e poucos têm um pouco disso: menos vontade de carregar peso desnecessário. E também a descoberta de que algumas despedidas chegam antes do que a gente imaginava. Pessoas que fizeram parte da nossa vida por muitos e muitos anos começam a se despedir em definitivo sem aviso. Eu não imaginava que já teria tanta gente para sentir falta.
É cedo demais para concluir alguma coisa. Fiz sessenta e um há poucos dias. Ainda estou na fase de observação.
A lista, portanto, continua aberta.
E, pelo jeito, vai ser longa.
Afinal, depois dos sessenta, a gente passa a observar mais a vida.
O problema é que a vida também começa a observar a gente.
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