
Encontrei uma edição do livro Nada de novo no front da L&PM Pockets e não tive dúvida. Mergulhei novamente naquele universo denso e aterrorizante da Primeira Guerra Mundial. O filme havia sido impactante. O livro também seria, de outra forma.
Soube que Erich Maria Remarque reuniu suas anotações e rascunhos sobre as vivências e os traumas do front durante a década de 1920 e finalizou o livro em 1928, quando tinha 30 anos. Talvez isso ajude a explicar uma das qualidades mais interessantes da obra. Remarque narra a guerra como um jovem, e não como um escritor maduro que, muitos anos depois, tenta reconstruir as experiências da adolescência. E isso faz muita diferença.
É comovente a forma simples, franca e até mesmo inocente com que ele trata os sentimentos humanos; o modo desarmado como aqueles jovens enxergam a vida, o medo, a amizade e a morte. Não existe sofisticação da dor, racionalização do medo ou tentativa de transformar o sofrimento em discurso. Remarque conseguiu colocar tudo isso no papel com uma força que talvez um escritor mais maduro tivesse dificuldade de alcançar.
O livro é muito bem escrito, narrado de forma ágil, com diálogos desconcertantes e personagens de uma humanidade crua quando atravessados pelo medo, ansiedade, raiva, dor e apatia.
Já no início, somos levados a pensar sobre o peso que a pressão social pode exercer sobre nós. Quem não se alistasse para a guerra, deixaria de ter lugar naquela sociedade. “Naquela época”, diz o personagem, “até os nossos próprios pais usavam facilmente a palavra covarde”.
É uma palavra poderosa.
E a adesão a uma narrativa coletiva funcionou mais uma vez como forte mecanismo de proteção psíquica.
Naquela época, a lógica era simples: a guerra seria uma aventura, um dever, uma oportunidade de provar coragem e fazer parte de algo maior.
Ninguém parecia ter pensado em perguntar quem levaria os tiros.
E é justamente aí que o livro fica brutal.
Eles partiram para defender grandes ideias e acabaram lutando por pequenas coisas.
Um pedaço de pão.
Um cigarro.
Um pouco de silêncio.
Um companheiro vivo ao lado.
A violência física e psicológica foi desmontando, pouco a pouco, tudo aquilo em que acreditavam. Eles deixaram de ser estudantes, filhos, amigos e namorados para se transformarem em soldados. E soldado aprende uma regra bem objetiva: matar antes que alguém o mate.
Não há muita filosofia nisso.
Desde então, muita coisa mudou. Os uniformes, as armas, as ideologias, os discursos e até a maneira de contar a história. Mas continuamos carregando esse instinto tribal, essa força profunda que nos leva a buscar pertencimento, escolher lados e fabricar inimigos.
O livro nos faz pensar... talvez a história mude mais depressa do que nós.
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