
Houve um tempo em que alimentei a fantasia de ter nascido na época errada.
Em meus devaneios, eu frequentava a praia de Ipanema de Tom e Vinícius no auge da bossa nova, quando bastava um cantinho e um violão. Até que um amigo, disposto a quebrar o encanto, disse que aquele tempo tinha sido bom mesmo só para eles. Uma observação cruel, mas com boa dose de verdade. Toda época parece maravilhosa quando a gente elimina dela os problemas da vida real.
Depois, eu era um surfista do Arpoador no início da década de setenta, circulava pelo berço espiritual e cultural do esporte no Brasil dirigindo uma Kombi carregada de pranchas estranhas e amigos suspeitos. Ou pranchas suspeitas e amigos estranhos, como preferir. O cabelo era comprido, a vida era curta e, aparentemente, ninguém precisava trabalhar. O sonho durou pouco, até a necessidade de independência bater à porta.
Também já me imaginei vivendo em Londres no tempo dos Beatles e Rolling Stones, quando aquilo tudo acontecia. O problema é que, nessa fantasia, eu esquecia que provavelmente estaria trabalhando oito horas por dia em algum emprego sem graça, enquanto os Beatles tocavam para as pessoas que podiam acordar tarde no dia seguinte.
Mais tarde, o mundo interessante parecia estar no Circo Voador, no Rio, ao som de Paralamas, Cazuza, Lobão e Marina. E eu aqui no Sul, assistindo àquela revolução cultural pela tevê. De casaco, galocha e guarda-chuva.
Há quem sonhe em ter nascido em Paris. Outros prefeririam Nova York. Há quem se veja em uma vinícola na Toscana, produzindo vinho e filosofando diante de uma paisagem bucólica. Na prática, talvez passasse o dia discutindo impostos, fornecedores e logística.
A capacidade humana de editar o passado, apagando cuidadosamente da fotografia tudo o que poderia estragar a composição, sempre me seduziu.
Às vezes, imagino que o mundo verdadeiro está em outro lugar.
Quando vejo alguém demonstrando o quanto é rico ou influente em alto volume ao celular, por exemplo, me transporto para o Japão. Sento no metrô de Tóquio e aproveito a viagem na companhia de uma civilização em que milhares de pessoas conseguem permanecer juntas dentro de um vagão sem que uma delas sinta necessidade de transformar o telefone em uma caixa de som pública.
E então lembro de Toshikatsu Matsuoka, que teve o azar de nascer no lugar errado. Aqui estaria aproveitando a vida.
E há aqueles que nasceram no planeta errado.
Os que acham que todo problema pode ser resolvido com bom senso. Os que acreditam que as pessoas deveriam cumprir o que prometem. Os que ainda esperam que uma fila ande em ordem. Os que ficam indignados quando alguém estaciona ocupando duas vagas.
Esses são casos perdidos. Erraram de planeta.
Talvez seja por isso que tantas pessoas tenham uma vida imaginária paralela. Ela funciona como uma espécie de imigração sem burocracia. Podemos ser surfistas quando somos contadores, músicos quando somos profissionais de TI, cosmopolitas quando moramos no mesmo bairro há trinta anos.
Não precisamos sequer mudar de endereço.
Basta fechar os olhos.
Eu já tive várias vidas imaginárias.
Fui carioca, surfista, londrino, frequentador de Ipanema e cidadão involuntário de outros tempos e lugares.
Nenhuma delas deu certo.
Começo a desconfiar que nasci na época certa, no lugar certo e no planeta certo.
Afinal, se tivesse sido diferente, eu provavelmente estaria tão ocupado vivendo a vida perfeita que não teria tempo para escrever sobre ela.
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