
Um grande cartaz colado logo na entrada de uma associação de bairro diz em letras grandes:
"Joel Trindade estará na cidade
Joel Trindade estará na cidade na próxima semana. Voltará para vender alguns pertences antes da mudança para o litoral. Depois da aposentadoria, decidiu desacelerar e investir na qualidade de vida. Ele merece. Quer vender seu colchão queen size, dois pufes, utensílios de cozinha e outros pertences. Sua esposa, Silvia, está organizando um bazar que começa na próxima segunda-feira, aqui mesmo na associação.
É hora de dizer adeus a Joel. Sentiremos falta da amizade dele. Sentiremos falta do seu senso de humor e do seu churrasco. "
Cartazes assim já não passam despercebidos por mim. Um sujeito bem vivido e querido pela comunidade está recomeçando a vida em outro lugar. Como será acordar numa cidade onde ninguém conhece a sua história? Depois de tantos anos tendo o trabalho como identidade, talvez ele esteja prestes a descobrir quem é quando ninguém mais perguntar o que faz.
Por quanto tempo uma pessoa continua existindo depois de ir embora? Talvez enquanto alguém ainda conte uma história sobre ela.
E tem a questão do colchão.
Joel é otimista. Acredita sinceramente que alguém vai comprar seu colchão usado, carregado de histórias íntimas e fluidos corporais. Pensando bem, talvez tenha razão. Sempre existe alguém disposto a dormir sobre as lembranças e os materiais biológicos de um desconhecido quando a necessidade aperta.
Quem escreveu o cartaz escolheu de propósito a ordem das saudades ou foi puro instinto? Joel será mais lembrado pela amizade, pelo churrasco ou pelo senso de humor? A ordem das qualidades deve dizer mais sobre quem escreveu. Na hora da despedida, cada um sente falta de uma coisa.
Fico imaginando como era Joel antes de virar o homem do cartaz. Será que fazia piadas de tiozão? Será que o churrasco era tão bom ou a saudade já começou a exagerar?
Acho que já simpatizo com ele. Talvez seja apenas curiosidade. Por garantia, anotei na agenda: passar no bazar do Joel Trindade.
Quem sabe eu volte para casa com um escorredor de macarrão ou com uma história.
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