
Naquele domingo, ele acordou com um amargo na boca. Não era ressaca. Nem azia. Nem refluxo. Tinha gosto de coisa não resolvida. Talvez injustiça.
Então não levantou. Precisava da sabedoria das primeiras horas da manhã. Precisava da mente limpa.
Ficou imóvel, olhando o teto enquanto os primeiros raios de sol desenhavam sombras inquietantes nas paredes do quarto. Não demorou para o último sonho voltar à superfície.
As cobranças. A pressão das metas. As reuniões constrangedoras que poderiam ter sido evitadas.
O reconhecimento que nunca vinha.
Depois, uma mudança brusca de cenário.
Ele no leito do hospital.
A família preocupada em volta.
Alguns poucos amigos consternados.
Dois colegas de trabalho cabisbaixos por educação, não por sofrimento..
Ouviu alguém dizer:
— É tão dedicado ao trabalho.
Um amigo completou:
— Preocupado demais.
Ele esperou mais alguma coisa.
Uma lembrança emocionante.
Um elogio sincero.
Uma revelação transformadora.
Mas ninguém falou.
A conversa logo mudou para futebol, receitas de bolo e vagas de estacionamento.
Foi quando ele percebeu algumas verdades assustadoras daquele sonho:
O mundo continuava perfeitamente capaz de funcionar sem ele.
Sua vaga já estava anunciada no LinkedIn.
Até numa cama de hospital ele continuava esperando uma avaliação de desempenho.
A ausência de um homem ocupa muito menos espaço do que a presença dele imagina.
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