O silêncio do meu pai



Para mim, o jornal aberto na página de esportes, o rádio sintonizado na estação de notícias e o cigarro descançando sobre o cinzeiro eram os amuletos domésticos que faziam do meu pai um homem importante. Aquele ritual parecia sustentar o mundo. Tudo estava no lugar, e isso bastava.

Eu observava de longe, sentado no sofá, convencido de que esses objetos imóveis quase sagrados legitimavam sua autoridade e seu poder de proteger a todos. Bastava possuir um grande jornal, um rádio potente e um cinzeiro de cristal para que a vida se mantivesse nos trilhos.

Meu pai era uma espécie de soberano doméstico, que fiscalizava tudo com um olhar austero por sobre os óculos de leitura enquanto o som do rádio enchia a sala de informações inúteis. Cada gesto mínimo como virar a página, aumentar o volume ou bater a cinza do cigarro parecia fazer sentido, como se o destino da casa dependesse deles.  

Até que um dia tudo mudou.

O rádio desligado, o jornal abandonado sobre a mesa de canto e o cinzeiro vazio anunciaram: o mundo em que você vivia não existe mais. Por muito tempo vigiei a rua esperando ver seu carro chegar, até compreender que as coisas nunca estiveram sob controle, nem mesmo para ele. 

Descobri, então, que a verdadeira segurança não nasce de um futuro previsível, mas da capacidade de se manter em pé diante das incertezas. 

Cresci acreditando ter aprendido a lição. Abracei a imprevisibilidade, sem planos, sem qualquer ilusão de controle, vivendo um dia de cada vez. Ainda assim, muitas foram as noites em que fiquei à deriva entre o passado e o futuro, nesse encontro do que foi com o que será, remoendo o que poderia ter sido. 

Meu pai talvez encenasse seus rituais domésticos não porque acreditasse controlar a vida, mas porque precisava fingir calma enquanto os fantasmas do passado e as ameaças do futuro rondavam a casa. Era sua missão.

Demorei muitos anos para entender seu silêncio. O peso que carregava nas costas não era o da autoridade, mas o da esperança. Como Guido Orefice em A vida é bela, que escondeu o medo e as amarguras para que o filho atravessasse a primeira infância acreditando que, apesar de tudo, a vida pode ser bela.

 


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