O mundo que gente carrega



- A gente vai passar dois dias ou vai se mudar? 

- Pois é. Tu também caprichou na bagagem. Não reclama da minha. Mulher é assim, não sabia? 

Ele balançou a cabeça como quem discorda concordando — aquele gesto híbrido que tanto serve para encerrar um assunto quanto para evitar que outro comece. Não foi exatamente submissão; pareceu mais uma forma prática de autopreservação doméstica. Se insistisse, corria o risco de ouvir que não entendia de mulher, e ninguém quer perder uma discussão antes mesmo de saber qual é o tema.

Observei a cena com um interesse antropológico. As malas brotavam como se estivessem em mitose, ocupando cada espaço vazio do porta-malas: duas grandes, duas médias, uma bolsa pequena, irrelevante, mas inegociável, e outra que parecia ser dedicada apenas a sapatos de verão. Havia também uma nécessaire volumosa o suficiente para sugerir um kit de sobrevivência para o fim do mundo, além de uma constelação de sacolas menores, cuja ausência seria, sem dúvida, imperdoável.

Foi então que voltei à infância.

Éramos cinco espremidos dentro de um fusca, com bagagem suficiente para passar um mês na praia. Havia até rancho de não perecíveis: pacotes de bolacha, sacos de arroz, feijão e farinhas, latas, garrafas e outros mantimentos . Um mundo inteiro cuidadosamente empilhado e redistribuído até caber. E, de alguma forma, sempre cabia.

E havia a gaiola do hamster.

Presença olfativa marcante, o pequeno roedor seguia alheio à grandiosidade da operação logística. Parecia resignado ao seu papel naquele microcosmo itinerante. Nós, não. A cada curva, armava-se uma negociação silenciosa entre joelhos, cotovelos, ombros e objetos que insistiam em ocupar mais espaço do que lhes cabia por direito.

Hoje, quando vejo um Fusca passar, me pergunto como aquilo era possível. Não apenas o pequeno milagre do encaixe físico, mas a naturalidade com que tudo acontecia. Ninguém questionava o excesso, o aperto ou o cheiro da gaiola. Era assim, e pronto.

Talvez porque, naquela época, a gente acreditasse que caber era uma questão de vontade. 

Com porta-malas maiores e interiores mais confortáveis, seguimos repetindo o ritual. Agora com mais tecnologia, mais compartimentos e uma inexplicável sensação de falta.

E talvez falte mesmo, porque o problema nunca foi o espaço, e sim o tamanho das vontades. A vida cresceu, e a gente precisa se ajustar.

 

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