O bicho da escrita



Você esperava que Renée e Paloma fizessem tanto sucesso? Se eu tivesse o prazer de reencontrar Muriel Barbery, faria essa pergunta a ela. Posso imaginar um sorriso surpreso e amistoso como resposta, mas também posso imaginar uma testa franzida em sinal de reprovação à ousadia — embora isso pouco importe. Gosto da sua escrita, ainda que seja recheada de digressões filosóficas, às vezes densas demais para um cronista como eu. Foi assim em Uma hora de fervor e também agora em A Elegância do Ouriço.

Bastaria uma porteira de prédio que finge ser rabugenta para afastar julgamentos sociais se revelar uma intelectual autodidata, apreciadora de Tolstói, Kant, música clássica e cinema japonês para balançar o leitor. Não contente, Muriel foi além; desafiou a lógica realista com uma adolescente superdotada, culta, sensível, que aprecia a arte, demonstra interesse pela complexidade humana e que planeja se suicidar em breve.

Não me pareceu crível uma menina de doze anos com tanta inteligência, cultura e sabedoria. Tampouco me pareceu crível alguém com tamanha curiosidade pela vida planejando interrompê-la. Ainda assim, nada disso me fez perder o interesse, pelo contrário. Eu, se crítico literário fosse, diria que Muriel ousou ao quebrar a verossimilhança de seus personagens principais. Assumiu um risco narrativo considerável, mas  produziu efeitos positivos ao romper as expectativas dos leitores com talento e competência ímpares. Ela fez o feitiço virar a favor do feiticeiro. Basta ver o sucesso retumbante do livro.

Talvez tenha sido justamente essa força dos personagens que provocou em mim um efeito curioso. Outro dia, percebi isso de maneira bastante clara. Ao terminar de ler o capítulo 18 chamado Doce Insônia, fechei o livro e comecei a imaginar meus últimos personagens interagindo com os dela.

Seu Irineu é frequentemente visto tomando chá com biscoitos na casa da Renée. A amizade surgiu quando ela comentou que a pia da cozinha estava vazando. Pra quê? Seu Irineu puxou logo a caixa de ferramentas, e desde então são bons amigos.

Paloma e Jorginho são colegas e sentam lado a lado na sala de aula. Jorginho chama a atenção de Paloma pela leveza, pela pureza da alma, e Paloma chama a de Jorginho pela inteligência — ela sabe de tudo. Os dois interagem cada vez mais, e há quem diga que serão o próximo casal Eduardo e Mônica do colégio.

E Benjamin? Bem, ele não criou vínculo com elas, entretido demais que está com suas namoradas virtuais. Apenas cumprimenta com um sorriso aberto quando as encontra na portaria ou no elevador.

 - Estranho — pensei. O que está acontecendo comigo?

 - É o bicho da escrita — respondi surpreso com a descoberta. Aquele tão bem descrito pelo Rui Zink. Só pode ser ele.

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