
O irmão encarregado da biblioteca costumava cochilar durante o expediente. Não chegava a ser um defeito grave, mas foi o bastante para que o lugar se tornasse o quartel-general da operação. Entre estantes altas e livros que ninguém lia, passaram dias estudando a rotina da escola, sempre tendo como desculpa uma suposta pesquisa sobre a Revolução Industrial encomendada pelo professor de História.
Quando o plano ficou pronto, surgiu o problema mais sério: quem iria executá-lo. Não bastava coragem, era preciso ter boas pernas, algum talento para a mentira e, sobretudo, saber manter a calma quando tudo começasse a dar errado. Aranha foi o primeiro nome lembrado, mas recusou sem rodeios, como quem sabe onde está se metendo. O olhar coletivo então se voltou para Jorginho. Ele aceitou sem pensar muito, talvez imaginando que aquele gesto de ousadia lhe garantiria um lugar permanente na memória alheia — que, afinal, é uma forma modesta de eternidade.
A execução foi adiada duas vezes por motivos técnicos e nervosismo geral. Até que chegou o dia certo: uma quinta-feira ensolarada de primavera, ainda longe das provas finais. Faltavam quinze minutos para o intervalo quando Jorginho pediu para ir ao banheiro. Balançou as pernas, fez cara de sofrimento e caprichou no drama. O professor de Inglês, famoso pelo coração mole, autorizou de imediato apontando para a porta com uma expressão solidária.
Nada foi deixado ao acaso. Jorginho saiu da sala devagar, segurando-se como pôde para reforçar a urgência. Apertava o pinto com uma mão e a barriga com a outra. Um pouco demais, comentariam depois os cúmplices.
Desceu até o térreo e entrou em uma das muitas casinhas vazias do banheiro masculino. Esperou o tempo combinado, nem mais nem menos, e então saiu. Subiu dois lances de escada, parou diante do sino e olhou para os lados. Ninguém. Inclinou-se sobre o guarda-corpo e tocou o sino com a segurança de quem havia ensaiado mentalmente muitas vezes, imitando o ritmo exato do irmão responsável pela tarefa.
Voltou correndo e se trancou novamente na mesma casinha, agora promovida a esconderijo.
O efeito foi imediato. Alunos saíram das salas, professores confusos ficaram sem reação, e os irmãos, furiosos, tentaram restaurar a ordem. O corredor virou um vaivém de passos apressados, portas batendo e vozes desencontradas. Trancado ali, Jorginho prendia a respiração e contava os segundos, enquanto o barulho distante confirmava o sucesso da empreitada e o tamanho da encrenca em que havia se metido.
Quase cinquenta anos depois, o episódio ainda aparece nas conversas quando antigos colegas se reencontram. Antigos amigos: aqueles que sabem tudo sem nunca terem perguntado nada. Falam da vida, do tempo, de uma coisa e outra, até que alguém puxa o assunto.
Jorge virou empresário, pai de família, cidadão respeitável. Faz trabalho voluntário, joga tênis com invejável regularidade e toca baixo em uma banda cover dos anos 80. Nada disso impressiona os colegas dos tempos de escola. Para eles, quando alguém pergunta quem é Jorge, a resposta é sempre a mesma:
— É aquele que tocou o sino do colégio.
No fim das contas, era isso o que ele queria. E conseguiu.
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