Resposta ao Tempo



 

A crônica dessa semana estava quase pronta. Falava de futebol, do quase rebaixamento do Inter, do DJ Xaropinho e do emocionante post do Carpinejar intitulado Lealdade, mas uma grande e irreparável perda que tivemos nos últimos dias me fez mudar de ideia. Senti vontade de escrever sobre a finitude da vida, sobre as boas lembranças e os exemplos que certas pessoas nos deixam e sobre uma certa santinha de Santa Rita de Cassia que fez parar o tempo na quarta-feira passada. Talvez, porém, ainda seja cedo demais para isso.

Resgatei, então, um texto que escrevi em dezembro de 2023 sobre uma conversa que tive com o tempo enquanto ouvia a música Resposta ao tempo de Aldir Blanc na voz da Nana Caymmi. Uma obra prima em que Aldir transforma o tempo em um personagem que zomba das dores humanas.

Batidas na porta da frente

É o tempo

Anuncia o início de um novo ciclo. Pergunto como será, ele dá de ombros, diz não ser capaz de prever o futuro. Logo recua, arrisca um palpite óbvio: será diferente. Nunca é igual. Sabe ensinar e curar como ninguém, mas não tem todas as respostas.  

Insisto, instigo. Pergunto se sentirei alguma tristeza, ele responde sim. Aquela sensação de vazio fará algumas visitas. Durará um, no máximo dois dias, e então, minha vontade de viver, a força da vida me puxará do poço. Sairei mais forte, como sempre.   

Ele zomba

do quanto eu chorei

porque sabe passar

e eu não sei

Pergunto se serei feliz, ele responde com uma pergunta. Estás preparado para aproveitar as boas fases da vida e atravessar os momentos difíceis com serenidade? Espero que sim. Espero também que surja um novo interesse; escrever um romance, compor, tocar um novo instrumento… Ele não entende, quase desdenha. 

Respondo que ele aprisiona

Eu liberto

Que ele adormece as paixões

Eu desperto

Ofereço pousada, ele recusa, diz que precisa seguir. Então, peço que volte. Ele sorri em um sopro, demonstra simpatia pela ideia, mas não promete, não pode prometer nada. Ao sair, deixa um conselho: não tema as mudanças. Logo pra mim? Atravessei várias delas com sucesso, gosto de lembrar do passado com nostalgia, mas não estou preso a ele... e então, revejo a resposta; prometo pensar sobre mudanças. 

Num dia azul de verão 

Sinto o vento

Há folhas no meu coração

É o tempo 

 

“Resposta ao Tempo”, de Aldir Blanc
por Luiz Fernando Bettella

 

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