Crônicas do Bettella


A subtração

Ninguém imagina que ele foi capaz de subtrair uma barra de chocolate meio amargo do patrimônio de um supermercado sem qualquer contraprestação pecuniária. Nem mesmo quem o conhece desde sempre. O passado tem lá suas ironias.
Hoje é um homem de conduta ilibada; corrige o garçom quando percebe que esq...

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O bicho da escrita

Você esperava que Renée e Paloma fizessem tanto sucesso? Se eu tivesse o prazer de reencontrar Muriel Barbery, faria essa pergunta a ela. Posso imaginar um sorriso surpreso e amistoso como resposta, mas também posso imaginar uma testa franzida em sinal de reprovação à ousadia — embora isso pou...

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Quem vai acender e apagar a luz?

Seu Irineu não gosta de música sertaneja nem de funk. Suas escolhas musicais costumam girar em torno da "Era de Ouro" da MPB e do samba raiz.
É homem de rotina consolidada. Aos sábados, lava o carro na calçada em frente de casa, com a solenidade de quem prepara um desfile de sete de s...

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Modesta eternidade

O irmão encarregado da biblioteca costumava cochilar durante o expediente. Não chegava a ser um defeito grave, mas foi o bastante para que o lugar se tornasse o quartel-general da operação. Entre estantes altas e livros que ninguém lia, passaram dias estudando a rotina da escola, sempre tendo como d...

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A regra dos cinco segundos

Três belas fatias de pizza sabor marguerita caíram no reluzente chão de porcelanato da sala. Tensão. Levantei da cadeira como um raio, dominado pelo instinto primitivo de resgatá-las antes que fossem contaminadas pelas onipresentes bactérias, mesmo sabendo que a tal regra dos cinco segundos não resi...

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Ele não morde

Eu costumava soltar essa frase para tranquilizar quem demonstrava algum medo, até o dia em que ele mordeu o calcanhar de um entregador de pizza. Em sua defesa, há atenuantes: mordidas eram raras e tinham como vítimas apenas adultos desconhecidos. Também é importante lembrar que todo cachorro qu...

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Os garçons da 926

Quem se hospeda na cabine 9235 do MSC Preziosa, tem direito a jantar todas as noites na mesa 926 do restaurante L'Arabesque, localizado na popa, no Deck 6. Reza a lenda que isso acontece em todos os cruzeiros não temáticos do verão brasileiro. O Chef é ótimo, o ambiente é requintado, e os garçon...

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Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença

Ontem fui a uma bela festa de casamento, daquelas que a gente não vê mais com tanta frequência. Lugar bem decorado, gente bonita, animada, música ao vivo, comida e bebida fartas e de ótima qualidade. Houve cuidado em cada detalhe — fácil perceber. Deu vontade de escrever sobre os vários s...

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O velho do saco

Há quem chame de terrorismo as práticas de pressão coercitiva usadas pelos pais para disciplinar os filhos nas décadas de 1960 e 1970. Terrorismo talvez seja uma palavra muito forte, mas é fato que a forma de educar mudou bastante desde então. Basta ouvir as canções de ninar que embalaram os berços ...

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O inesquecível 24 de agosto de 1984

Você lembra onde estava na tarde de 24 de agosto de 1984? É preciso ser vivido, ter boa memória e um pouco de sorte para lembrar. Eu cumpro os requisitos. Naquela tarde, estava em casa, fato raro na época. Tinha 18 anos, quase 19, desfrutava dos privilégios da maioridade sem subterfúgios, sem contar...

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