
OK, confesso. Às vezes sou fisgado por um desses mantras requentados que perambulam pelas redes sociais até encontrar um desavisado em dia de filósofo. "Seja a melhor versão de si mesmo", aconselhava um simpático candidato a guru digital que não parecia ter muita experiência no assunto.
Ora, eu sou a melhor versão de mim mesmo, pensei. E, mesmo que não fosse, teria muita dificuldade em admitir. Amadureci? Sim. Involuí? Claro que não. Parece óbvio.
Depois pensei que talvez houvesse alguma lógica nisso. De todas as escolhas que a vida me apresentou, as decisões que me trouxeram até aqui foram justamente as que precisavam acontecer. Nem sempre foram as melhores, mas talvez tenham sido as mais necessárias. Quem não gosta de um bom paradoxo? Passamos a vida inteira tentando escapar dos erros e das dores, quando são justamente eles que acabam nos ensinando mais. A dor nos obriga a responder perguntas que o conforto nunca faria.
Pensei no curso de engenharia que abandonei, na decisão de começar a trabalhar antes da graduação, na mulher que escolhi e que, por sorte, também me escolheu, e nas amizades que sobreviveram ao tempo. Eu sabia muito menos do que sei hoje, mas minha intuição compensou a falta de experiência. Não seria tão feliz se tivesse seguido outro caminho.
Carregue um inventário de arrependimentos ou uma coleção de histórias, disse o bem-intencionado aspirante a coach na sequência do carrossel. Lembrei do Nei Lisboa. "Todas as bobagens que eu já disse dariam pra encher um caminhão", cantava ele. As minhas também. Talvez dois caminhões, se resolvessem levar junto as bobagens que eu fiz. Descobri que tínhamos outra coisa em comum além da música.
Feitas as contas, somos quem conseguimos ser. Muitas vezes, um improviso entre acertos e erros, insistências e desistências. Imagino que a melhor versão de nós mesmos não seja necessariamente a mais brilhante, mas aquela que finalmente fez as pazes com as anteriores.
E, se amanhã eu descobrir uma versão ainda melhor de mim mesmo, será bem recebida. Desde que não invente um banho gelado no inverno nem me faça dançar para o algoritmo.
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